OLHAR AO CAIR DA TARDE
Argemiro vivia mais um entardecer na mesmice que o acompanhava há anos. As quatro estações do ano se arrastavam em apenas uma; inanição mental e de sentir fazia-lhe parceria em samba triste sem uma nota só.
Nada mais atraía sua atenção; por mais que a natureza insistisse em mostrar-lhe seu esplendor. Sua vida e alma se encontravam em fase de espólio, vencida, de tempo, a putrefação de seus sonhos. Dividindo seu nada para ninguém. Sem deixar ao menos um codicilo, pois, já, em petição de epitáfio.
Naquele dia, almoçou tarde e alongou-se também na sesta. Beirava a cinco horas da tarde quando acordou. Esticou o esquálido espinhaço; levantou-se com um bocejo sem graça; com o gosto insistente do charque na saliva. Antigamente acendia um cigarro; o temor por aquela doença tirou-lhe o vício. Ainda tem medo. E muito.
Sem estímulos, vagueou pelo amplo apartamento de nono andar com vista para o mar e costado para o pôr do sol do Potengi. Mesmo assim, não se animava.
De repente, lembrou-se da recomendação da sogra, que partira de casa no início do ano, para que não deixasse a seco o bebedouro de água açucarada do beija-flor. As sogras sempre fazem recomendações aos genros – com vigor e o rigor que toda ordem traz consigo. Ah, se os poetas soubessem o trabalho que dão os beija-flores! Não vamos macular a poesia por rabugice aos pequeninos. Em princípio, pensou: bobagem, deixa prá lá. Foi, voltou, foi e voltou. Resolveu abastecer o vasilhame com o néctar esperado pelos minúsculos e graciosos pássaros; há dias, é bom lembrar. Depois que a sogra foi embora a sede dos bichinhos agravou-se ante a estiagem do doce que lhes abateu e careceu.
Aproveitou, e sentou-se na varanda para contemplar o mar. Zarpava do porto um transatlântico – nossa tão antiga esta palavra - desses que fazem cruzeiros em veraneios. Achou que estava a caminho de Fernando de Noronha. Depois percebeu pela proa que o destino deveria ser Recife.
Imaginou quantas pessoas radiantes de vida e corações em algazarra compartilhavam momentos de inebriantes prazeres. Casais em lua de mel; velhos amores renovando em bis a antiga, apaixonados, amantes, seduções, amigos, brindes, vidas latentes aliviando-se dos momentos da lida do ano findo; tripulação que mesmo na rotina serviçal renovava os encantos da viagem; o mar nunca é o mesmo; nem o será – todo pescador conhece esta regra; beleza sempre renovada como os raios do sol a saudar a alvorada em disputa com a lua, esta, dando adeus aos mistérios da noite. Ao entardecer, revezam suas posições; suas vindas e despedidas em incansável e aprazível rotina de bailar suas luzes sob a sinfonia das marés.
Os beija-flores chegaram, saciaram com sofreguidão a sede guardada, voltaram, voltaram, beberam e beberam. Lutaram entre si pelo senhorio da fonte edulcorada. São muito possessivos. Sempre há um vencedor a dominar o espaço doce; a inspiração do poeta. Detestam a obediência e disciplina das formigas e das abelhas. Bobas!
Em rota contrária, um navio cargueiro adentrava no porto para o descarrego e abastecimento de mercadorias para empreender nova rotina do trazer e levar sem fim para os mais distantes recantos do mundo. Atrevidas, ziguezagueavam humildes jangadas com suas velas rotas depois da busca pelo peixe diário, nem sempre farto no dia a dia; sem mal dar um pirão a um pobre cidadão.
Percebeu que era hora do Farol de Mãe Luiza lampejar seus fachos e avisos aos navegantes. Pobre farol; solitário porque seus vizinhos não marujos, em mórbida insensatez, insultam-no impingindo nulidade àquele que nasceu apenas para prevenir e socorrer pessoas que não eles. Não, ainda, não. Não são dezoito horas. Será que lhe dão luz na “Hora da Ave Maria”? Antigamente as rádios tocavam, britanicamente, a Ave Maria nas mais variadas versões. Gosto da de Gounod. É linda e suave; as outras nada ficam a dever. Inclusive a nossa Ave Maria no Morro. De Herivelto; na voz de Dalva; e outras tantas. Hoje, só “Beber, Cair, Levantar” entre as dez mais das paradas musicais...e sociais!
Da preguiça em pausas do farol tirou proveito a lua cheia. Surgiu no anil do céu bem sobre a passagem da bela nau. Esnobe, além de cheia, roubou a festa do velho Farol de Mãe Luiza; com mais luz porque a natureza não é negligente com suas crias.
Fraternal, Argemiro correu para dar o adeus ao pôr do sol no Potengi, que deitava seu vivo douro sobre o remanso das águas de Felipe Camarão. Perdão! Adeus não! Até amanhã; tudo será renovado em coração flamante; saído da rotina; com estima; enfim.
De repente, bateu tristeza grande em seu peito; sentiu que lhe palpitavam emoções de há muito sumidas de si. Um saudosismo ímpar. Pensou no cigarro; aquele velho amigo-inimigo. Não! A Velha Ribeira. Sim, a Velha Ribeira e seu abandono. Não se sabe mal maior; o abandono da Ribeira ou as ruínas de Pompéia. Aqui a ação da natureza, lá a desídia do homem a distribuir a indiferença pela obra de seu semelhante de ontem. Querem recriar a Ribeira. Porém, queimaram todos os seus arquivos. Não há como reviver sem conhecer, sem sentir, sem ali ter vivido, ainda que de coração; de poesia; de lamento; mesmo de longe ou de passagem; mesmo de favor; sem obrigação. Depois, querem vesti-la com roupagem de outros cantos; tirando-lhe sua essência, sua alma, seu encanto. Ainda não lhe sacaram o nome de batismo. Talvez algum dia se atrevam sob novas teorias urbanistas – ou ufanistas. Será? Perigo! O boom imobiliário descobriu a Ribeira. Assim, a Velha Ribeira – aquela dantes - não reviverá, continuará adormecida e agasalhada em nossas mentes e saudades. Que viva assim! Ao menos! Morrer, jamais! Alguém, um dia, dela haverá de lembrar. Sem planos, sem urbanismo, sem ufanismo. Aff! Quisera eu. Por que não eu? Por que não você? Por que não nós? Por que não os políticos? Não! Ainda bem que não! Deus nos defenda com um não a eles, claro, aos políticos. Elementar e curial, caríssimos!
Voltou à varanda, e arriscou uma olhadela para as dunas de Genipabu. Pano de fundo para a Redinha das gingas, tapiocas e outros segredos. Majestosas como sempre; sinuosas em seus contornos iguais à silhueta de uma donzela, do tipo gazela; alvas a transpirar paz; vestais a inspirar desejos. Encanto de turistas deste mundo sem fronteiras, maravilhados com a obra da mãe natureza. Sempre visitada, sempre disputada, sempre ameaçada pelo vil metal da exploração imobiliária ou mesmo pelo turismo desenfreado e desordenado, sem CONAMAs, sem IBAMAs, sem IDEMAs. Há muito, dizimaram as emas.
A alvíssara dança dos beija-flores em estardalhaço, brigando pelo mel artificial já não se incomodava com aquele intruso da tarde; sisudo, quieto, sem nada falar, olhar no infinito. Iguais aos pássaros, os viajantes no já distante navio deveriam estar em estridente fausto; preparando seus corpos sem pudor para o amor de logo mais; brindando suas paixões; sem dúvida. Dionísio!
Argemiro deu férias à sua alma e adeus à tristeza; festejou-se pela tarde acontecida; vivamente vivida. Não esperava! Agradeceu. Feliz; ansioso; esperou pela esposa. Fez-se beija-flor. Quis lhe sorrir sua felicidade e beber o doce de sua paz!
Nenhum comentário:
Postar um comentário